terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Crise Mundial 5
A China, Madoff e os "treasuries"
William Pesek
12/01/2009
As livrarias de Pequim fariam bem em manter em suas prateleiras livros de Johann Wolfgang von Goethe. Sua obra ajudará as autoridades chinesas a compreender a "pacto faustiano" no qual estão envolvidas com os EUA.
A referência, aqui, é a abrir mão de princípios em troca de ganhos passageiros. Na literatura, o Fausto de Goethe é um mítico alquimista alemão que assume um um pacto com o demônio. E é nessa condição, essencialmente, onde a China, maior detentora estrangeira de dívida americana, se encontra no momento em que os EUA reaquecem sua economia.
O secretário do Tesouro, Henry Paulson, não é o diabo, mas em seu mandato os EUA transformaram-se numa enorme máquina emissora de endividamento. O Birô de Orçamento do Congresso (BOC) diz que o déficit americano mais que dobrará neste ano, para pelo menos US$ 1,18 trilhão, o maior desde a Segunda Guerra Mundial.
Barack Obama tem planos ainda maiores. As estimativas do CBO não incluem o custo do pacote de estímulo do presidente eleito, que provavelmente acrescentará pelo menos US$ 750 bilhões ao total nos próximos dois anos. No ano passado o déficit totalizou US$ 455 bilhões. Os EUA precisam do dinheiro chinês mais do que nunca.
"Passei a maior parte dos primeiros dois trimestres de 2008 embasbacado diante do ritmo de acumulação das reservas chinesas", escreveu, em Nova York, em seu blog, o economista Brad Setser, do Conselho para Relações Exteriores, nesta semana. "Suponho que passarei os primeiros trimestres de 2009 pasmo diante da escala do déficit fiscal americano".
Todo esse endividamento poderá fazer estourar o que Bill Gross, co-diretor da Pacific Investment Management Co., de Newport Beach, Califórnia, denomina "um mercado com algumas características de bolha". Isso não está escapando à atenção das autoridades em Pequim.
A China detém US$ 653 bilhões em títulos do Tesouro dos EUA, e há sinais de que os chineses estão perdendo seu apetite por dívida americana. A expectativa é de que a segunda maior economia asiática venha a cortar a presença de dólares em suas reservas de US$ 1,9 trilhão, e, possivelmente, substancialmente.
Os EUA estão, afinal de contas, agindo em detrimento de seu melhor cliente. Assim como acionistas abominam quando as companhias diluem suas ações com novas ofertas, os gestores da dívida chineses não podem ficar contentes com os planos do Tesouro.
Além de seu pacto faustiano, poderíamos nos perguntar se a China está também envolvida num "pacto madoffiano".
Não, o Tesouro não está armando uma enorme fraude do tipo pela qual é acusado o financista Bernard Madoff. Mas o cenário da dívida de US$ 5,3 trilhões mais se assemelha a um esquema Ponzi do que a um mercado.
Madoff personifica a ganância, falta de transparência e a confiança perdida que acompanharam a queda de graça dos EUA. Apesar de céticos terem questionado a veracidade do desempenho de Madoff ao longo de anos, as agências competentes não tomaram providências. Elas acreditaram nas afirmações e números de Madoff.
A razão pela qual as empresas de classificação de crédito não estão alarmadas e ameaçando rebaixar o status creditício americano é sua confiança. Existe uma profunda convicção de que esse emissor de moeda de reserva - não endividado em moeda estrangeira - sempre cumprirá suas obrigações. Isso não significa que estejam errados os críticos em cuja opinião o mercado transformou-se no maior esquema de pirâmide do mundo.
O que mantém o esquema funcionando é a idéia de que sempre haverá dinheiro novo entrando para salvar os investidores já participantes. O funcionamento apresenta uma dinâmica muito semelhante ao de um esquema de pirâmide. Os detentores de títulos do Tesouro americano não perderão tudo, como poderá ocorrer com os investidores ludibriados por Madoff. Mas a China vai sofrer, quando estrangeiros venderem títulos do Tesouro dos EUA e os rendimentos dispararem.
A questão é: com que agressividade a China irá se proteger do que parece cada vez mais um "conto do vigário". Economistas do Deutsche Bank AG em Frankfurt, por exemplo, estimam que a China reduzirá a participação de dólares (em suas reservas) para cerca de 45% neste ano, de mais de 70% em 2003.
Evidentemente, tendo se envolvido nesse arranjo, a China tem dificuldades para dele escapar. A função de sua economia é em larga medida vender produtos industrializados no exterior.
"Não estou sugerindo que esse modelo seja irrevogável", diz David Gilmore, sócio na Foreign Exchange Analytics, em Essex, Connecticut. "Como qualquer coisa em economia, o cenário evolui. Mas em meio a um desaquecimento mundial que o mundo não viu desde a Segunda Guerra Mundial, agora é a hora para que a China descarte o modelo econômico existente e adote um novo".
Desenvolver uma demanda interna é um objetivo de longo prazo que exige habilidade na condução de políticas e um nível elevado de tolerância a turbulência no curto prazo. Não está claro se 2009 é o ano em que deva ser promovida tal transição.
O melhor cenário para a China é que os consumidores americanos retomem a compra de seus produtos. A China tem auto-interesse em nada fazer que complique as coisas para a economia de maior porte. Desfazer-se dos títulos do Tesouro americano ganharia as manchetes, precipitaria uma aversão ao dólar e prejudicaria o crescimento americano.
Isso não significa que a China deseje arriscar mais dinheiro num esquema Ponzi em seus estertores. O mundo está cheio de exemplos de como isso pode terminar. E a China, com sua população de 1,3 bilhão de pessoas, certamente poderia usar uma parte desse dinheiro em casa, num momento em que sua própria economia revela-se claudicante.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Crise Mundial 4
O corte e cola abaixo vem do Economist desta semana, e mostra o "flight to safety" para títulos sem risco do Tesouro dos EUA, derrubando suas taxas e aumentando seus preços, o que não deixa de ser uma comédia, já que a crise estourou lá, e os EUA até agora parecem ser o país mais duramente afetado (os dados de desemprego em 2008 são de chorar...)
Incidentalmente, até o nosso querido Brasilll conseguiu emplacar uns títulos de 10 anos esta semana, com alta demanda e um "spread" relativamente baixo (370 pontos base sobre os títulos do Tesouro dos EUA, ou 3,7%).
From The Economist Intelligence Unit ViewsWire
Panicky investors have pushed bond yields in America near to historic lows
As the global economic crisis has prompted investors to retreat to safety, demand for many developed-country government bonds, most notably those of the US, has surged. With yields for some government securities consequently near historic lows—implying prices at corresponding highs—there is growing talk of a bond-market bubble. This is fuelling concerns that, once confidence begins to improve, investors will pull out of government bonds in favour of higher-yielding assets, potentially causing fresh disruption to financial markets.
Unsurprisingly, developments in the market for US Treasuries have underpinned the bond-bubble debate. This is not only because of the size, liquidity and global importance of the US Treasury market but also because investors continue to regard US government debt as the safest of all assets. Some may regard this as ironic, given that the US is the epicentre of the global crisis and that the monumental cost of bailing out US banks and providing economic stimulus ought, in theory, to undermine the US's creditworthiness. However, the global flight to safety has trumped all other considerations. Despite low returns and the prospect of a sharp deterioration in the US fiscal position, government debt remains highly attractive to investors.
How attractive? Yields on 10-year Treasuries are at about 2.6%. This is slightly higher than the lows of mid-December, but compares with 3.8% a year earlier. Yields have fallen dramatically since the financial-market turmoil that followed the collapse of Lehman Brothers, an investment bank, in mid-September. Indeed, such has been investors' appetite for US government debt that in December, for the first time, the secondary-market yield on three-month Treasuries turned negative: in other words investors were paying the US government to hold its debt. In short, investors are now tolerating far more meagre returns, and in some cases even seem willing to lose money, simply for the privilege of parking their cash somewhere safe.
It is a broadly similar story elsewhere. UK 10-year government bonds are yielding about 3.3%, down from 4.5% a year ago. Two-year bonds are yielding about 1.1%, down from 4.3% a year ago. German two-year government bonds yielded 1.7% on January 6th, down from 3.8% a year earlier.
What all this means for now is that relatively creditworthy governments are able to borrow very cheaply. Given the immense fiscal costs of various financial-sector bail-outs and stimulus packages, and the prospect of more spending to come, this is a welcome development for the governments involved. Of course, borrowers perceived as less creditworthy are not enjoying the same low interest rates. The spread between Italian two-year government bonds and US Treasuries, for example, has widened to 212 basis points, from 124 basis points a year ago. And commercial borrowers continue to face tight credit conditions.
The key question is what happens when the current bond-market boom unwinds. (Whether or not the boom constitutes a "bubble" is perhaps academic; some would argue that it is not a bubble because the underlying motivation has been risk aversion rather than speculation.) US Treasuries gave investors a return of about 14% last year, according to Merrill Lynch estimates, a very strong performance in the context of the big falls in global stockmarkets. But sooner or later, the extreme risk aversion evidenced in the flight to government bonds, and the concurrent freezing up of credit markets, is likely to ease, even if only slightly. Indeed, by some measures this may already be beginning to happen. Some Treasury yields have risen slightly on expectations of a large fiscal package from the incoming Obama administration.
But the very measures governments are taking to restore their economies to health are also likely to prove detrimental to the bond market. Some analysts and investors are already talking of bond prices being "ridiculously" high. Moreover, government policy poses risks to bondholders on two fronts. First, if stimulus efforts work, they will encourage investors to begin to move into slightly riskier assets, depressing bond prices. Second, the large stimulus packages planned by many developed-country governments—again, particularly, the US—will require further large increases in borrowing that could flood bond markets with new issues and undermine prices. The prospect of a disorderly bond-market correction is beginning to cause concern, given the global implications of a sharp fall in the value of US Treasuries, which are widely held by foreign governments and central banks. In the doomsayers' scenario, institutional investors would rush to sell their Treasury holdings into a falling market, with authorities in countries like China potentially doing the same and compounding the problem. At worst, this would lead to a collapse of the US dollar, a surge in US interest rates and even concerns about the sovereign's creditworthiness.
Yet such fears should not be overplayed. For one thing, it is by no means certain that the market has peaked. Even if government stimulus measures succeed beyond expectations, the severity of the global downturn means that the economic recovery is likely to be slow and fitful. So even if investors soon become slightly less risk-averse, continuing economic uncertainty and the risk of deflation should ensure that the majority will find bonds attractive for some time. Commercial banks, for example, can be expected to increase their holdings of US Treasuries as they continue to repair their balance sheets. The US Federal Reserve may also begin buying bonds directly from the US government, which would support prices. Nor is it clear that a massive bond sell-off by foreign holders of US assets, such as China, is anything more than a theoretical risk. China would have to adjust its dollar-centric exchange-rate policy in order to do so, with uncertain and potentially disruptive consequences for its domestic economy. Moreover, any reduction in Chinese holdings of US bonds might conceivably be offset by increased intervention by Japan, which is concerned about the strength of the yen.
Inflation is also a source of uncertainty for bond markets. Markets are caught between fears of a debt deflation spiral (good for bonds) and fears that government policy responses will eventually fuel high (or even hyper-) inflation. This is the key question facing bond markets. If sustained deflation did emerge, it could push yields down even further and prolong the bond bull market. But a sharp rise in inflation would have the opposite effect, sharply raising yields and causing heavy losses to investors who bought during the recent rise in the market.
sábado, 8 de setembro de 2007
Liberais e Conservadores nos EUA
Para os nossos padrões, e para os europeus, os "liberais" americanos estão muito mais à direita do que a maioria dos nossos políticos de "centro".
E por que esta possível guinada para a "esquerda" nos EUA?
2) As promessas republicanas (leia-se, da "direita") de corte de impostos na prática significaram muito pouco para a maioria das pessoas. A renúncia fiscal do governo foi enorme, mas sabe quem ela beneficiou? Os muito ricos. O impacto dos cortes em impostos sobre a classe média foi pratciamente nulo, e agora o troco vai ser dado nas urnas.
Aliás, isso é democracia.
3) A rede de proteção social foi paulatinamente desmontada. Os EUA nunca foram um welfare state com os países escandinavos (ou, em menor escala, França, Inglaterra e Canadá). No entanto, mesmo para os padrões americanos, a rede de proteção agora é insuficiente - o número de americanos sem seguro saúde aumenta a cada ano, o número de famílias vivendo na pobreza também, e na iminência de uma recessão as pessoas se tornam cada vez mais preocupadas com a existência de garantias mínimas de bem estar. Uma mudança para um governo democrata significaria um aumento de despesas com saúde, educação e previdência públicas e a paulatina reconstrução da rede de proteção social.
As três razões acima são, obviamente, econômicas. A próxima não é.
4) O americano médio se cansou do discurso social conservador. O governo Bushinho desde sempre se aliou aos setores mais conservadores da sociedade americana, defendendo a educação religiosa nas escolas públicas, tentando revogar a lei do aborto, pregando a "teoria" creacionista (leia-se Adão e Eva são ciência e não religião...) e outras coisinhas mimosas. Isso não necessariamente representa os desejos da grande maioria do povo americano. Os novos candidatos republicanos têm aparecido com um discurso social bem mais "light". Na verdade, o ícone do conservadorismo americano, Reagan, que fez o revival da onda conservadora a partir dos anos 80, poderia ser descrito como tudo, mas é difícil imaginar um ex-canastrão de Hollywood defendendo abertamente a revogação do aborto.
Eleições americanas
Do ponto de vista internacional, e da imagem dos EUA no mundo, uma mudança seria "show de bola", pois depois do "imbroglio" Iraque e de todos os conflitos de interesse e desfile de incompetência do governo Bushinho, a tendência é melhorar, pois pior não pode ser.
O fato é que os EUA estão na iminência de uma grande crise, o país está na porta de uma recessão, como a recente crise (ainda não resolvida) das hipotecas revelou. Os déficits gêmeos (comercial = balança de pagamentos = exportação - importação e fiscal = governo gasta mais do que arrecada) só cresceram no governo Bushinho, e o país está numa encruzilhada. Portanto, um futuro governo democrata vai se deparar com um crise "braba", e a solução comumente adotada nestes casos é o protecionismo, leia-se: barreiras alfandegárias e tarifas de importação mais altas. Ou seja, na crise, o lobby para proteger os produtores locais é enorme e isso tem TUDO a ver conosco.
Logo, a equação me parece bem simples: crise americana leva a governo democrata que leva a maiores "barreiras de entrada" no mercado dos EUA que cria dificuldades aos produtores (especialmente agrícolas) brasileiros. É claro que o processo não é tão simples quanto o que eu acabei de decrever, mas em linhas gerais segue isso mesmo.
Então, queridos, eleição americana tem tudo a ver conosco.
Mas, será que governo democrata é bom para os EUA? Acho que sem dúvida é. Será bom prá gente? Hum, há controvérsias....
